Entrevista com Abner Borba

02/09/09


Portal Gospel Sul: Como você se envolveu no setor profissional de áudio? Você se lembra do momento no qual você soube que isso era o que você queria fazer?

Abner Borba: Desde criança eu acompanhei meu irmão Asaph,no estúdio dele, enquanto gravava suas músicas em um estúdio de 4 canais no centro de Porto Alegre (na Rua General Câmara). Mas em 1992 eu estava desviado, longe do Senhor, vivendo minha vida de acordo com o que eu achava ser melhor.Não me entreguei às drogas e não me envolvi em grandes problemas.

Estava apenas vivendo minha vida independente de Deus e vivendo como qualquer jovem incrédulo em Jesus. Um dia o Asaph Borba (meu irmão) recebeu uma palavra do Senhor que se ele não me trouxesse pra trabalhar junto dele na Life, minha vida se perderia para sempre. Foi quando ele me convidou pra trabalhar no estúdio com ele (eu tinha 21 anos) , e sentei na frente de uma mesa de gravação com uma máquina analógica de 16 canais no dia 12 de Junho de 1992 pra fazer minha primeira gravação profissional, produzida por Daniel Souza para uma dupla de São Paulo. Gostei do ofício e tenho dedicado minha vida profissional em produções em áudio nos últimos 17 anos de minha vida, pra honra e glória do Senhor Jesus.


PGS: Grandes nomes da música gospel já gravaram contigo, além do seu irmão, Asaph, Casa de Davi, David Quinlan, Filhos do Homem, entre outros. Pode citar alguma(s) experiência marcante em algumas dessas gravações?

Abner Borba: No ano em que vim pro estúdio (1992) o Asaph fez uma música (Amigo Verdadeiro) que marcou o meu retorno pra Jesus.Naquele ano, pela primeira vez, senti Jesus como meu amigo. Amigão mesmo!!! Ele se manifesta direto pra mim nos mínimos detalhes da minha vida e se manifesta também na vida dos meus irmãos que têm pago o preço da unidade comigo. Me senti muito amado por Jesus e pelos irmãos na Igreja. Por isso sempre digo que quando alguém está retornando pra Igreja ou se convertendo pela primeira vez, é MUITO IMPORTANTE abraçarmos esta pessoa , levá-lo junto nos aniversários, visitá-lo, ministrar a palavra com esta pessoa.....esta é uma das reais razões da Igreja existir: RESGATAR AS VIDAS PERDIDAS. Daria pra escrever um livro só das experiências que tive dentro do estúdio e nas gravaçoes ao vivo em que me envolvi.Foi muito interessante quando o Cris (Filhos do Homem) “colocou pilha” pra eu microfonar e gravar chuva estéreo com dois microfones condensadores de dentro da janela de um estúdio em Pato Branco.Chovia torrencialmente e o Cris disse que precisava de som de chuva pro CD Mãos Limpas que estávamos gravando naquele momento. Era muito engraçado! Todo mundo em silêncio pra não atrapalhar a gravação da chuva. Está registrado e foi pro CD dele.

Outra experiência interessante foi na Alemanha, quando fui gravar ao vivo lá na Igreja Christus Zentrum, em Stuttgard. Um dos vocalistas do ministério teve uma visão de que por onde eu passava eu deixava sementes e ficava um rastro de flores. É assim que me sinto no meu trabalho. Não se resume a microfones e cabeamentos e mixagens , é uma semeadura nos ministérios. Deus sabe o sacrifício que é completar alguns projetos. Muitas vezes eu e minha esposa Cláudia temos pago um alto preço pra que vinguem estas flores nos ministérios.São horas , dias , feriados e madrugadas convivendo com um grande número de pastores, ministros de louvor , músicos e cantores. Ouvi muitas confissões, desabafos e conselhos que guardo com carinho e confidência no meu coração.


PGS: Qual é mais empolgante de se fazer: “ao vivo” ou “estúdio”?

Abner Borba: Olha , isso é muito relativo.Tem grandes Cds ao vivo e em estúdio também.Tem projetos enfadonhos e empolgantes dentro e fora do estúdio. Isso depende dos músicos, do ambiente, o tempo que se tem pra produzir, depende das condições de trabalho e das motivações de todos. Em termos de emoção, geralmente o trabalho de captação ao vivo é muito mais tenso pelo investimento financeiro que está envolvido naquele momento. Não dá pra errar! A responsabilidade é muito maior e é mais emocionante microfonar, plugar, apertar um botãozinho de “rec” e pilotar níveis durante uma gravação ao vivo. Parece que estamos pilotando um avião, descendo um penhasco ou voando de asa delta. É engraçado, não tem como explicar. Não sei outros profissionais se sentem assim mas essa é a minha experiência. Quanto ao resultado, nem sempre o que as pessoas ouvem em casa é o que aconteceu no momento da gravação ao vivo. O projeto em estúdio , no entando , é mais “manipulável”.Podemos conduzí-lo pra onde queremos se temos músicos e produtores competentes. Assim, em estúdio, o produtor pode colocar toda a emoção e mensagem que a música deve passar, mesmo gravando tudo em estúdio.


PGS: Qual sistema de gravação você está usando ultimamente (placa de som, daw etc)?

Abner Borba: No meio profissonal todo mundo me conhece por ser o cara da Steinberg. Usamos o Nuendo desde quando quase ninguém conhecia este programa. Agora estamos com o Nuendo 4 no estúdio da Life e em casa trabalho com o Cubase (por ser um programa barato). Temos um PC Dell XPS quadcore, com processador 3.8GHz e de interface temos a M-Audio Profire 2626. O Windows Vista foi um desastre! Não deviam ter lançado esta versão. Estamos testando o Windows 7 e está mais estável. Mas isso não é tudo, não é a garantia de que o som vai ficar legal. Vejo ainda hoje pessoas com muito menos “fazendo chover”. Isso é muito relativo. A minha principal bandeira com o Nuendo (e até o Cubase) é a tranquilidade na quantidade de tracks. Acho inadmissível o mercado se render a um sistema que em pleno século 21 tem que ter muito dinheiro pra se ter mais que 48 tracks! É muito comum hoje em dia utilizar muitos canais (mais que 48)! Mas como qualquer sistema, todos têm seus prós e contras. Atualmente (Setembro de 2009) Asaph e eu estamos reavaliando isso para o estúdio da Life.


PGS: Existe algum equipamento que você considera indispensável para o seu som (por exemplo: um determinado microfone, um pré específico etc.)?

Abner Borba: O que conta mesmo são bons microfones, prés, criatividade, timbres dos samplers virtuais (daí sim tem que ter potência no computador) e os plug inns (aqui também faz-se necessário uma boa máquina). Tem muitas marcas e modelos acessíveis no mercado. Poderia citar o nome de alguns prés e marcas, mas tem muitos similares e a concorrÊncia é enorme. Temos no nosso estúdio o pré Avalon e microfone Neumann mas tem muita opção no mercado! Apesar dos preços, hoje no Brasil se tem muito mais acesso a boas marcas do que antigamente. O que eu acho que o digital trouxe pra mente da “gurizada” é que basta ter plug inns que o som fica bom. Não é bem assim! Realmente o computador revolucionou 300% as produções mas não se iluda que músicos ruins processados no computador vão virar uma banda inglesa mixada em Nashville. Arte e competência humana sempre vai ser o elemento principal em qualquer estúdio.


PGS: Você tem algum truque ou dica para utilização de microfones?

Abner Borba: Já que estamos num site gospel, gostaria de dar uma dica pro pessoal nas igrejas, onde tem no mínimo um microfone pro pastor. Não se escandalizem os meus colegas do áudio, mas microfone no palco (ou no púlpito) tem que ser usado como se fosse uma lanterna. O que você quer captar de som é o que vai ser “iluminado”. Vejo às vezes as pessoas usando o microfone apontando pra cima ou mal colocado num pedestal. Apontem o microfone pra boca ou pro instrumento como se fosse uma lanterna iluminando. Escrevi isto num artigo e falo bastante em microfones e mesas de som quando ministro nos meus cursos. O pessoal da técnica tem que conhecer mais suas mesas de som e estudar um pouco mais seus manuais. Em muitas igrejas a turma não utiliza todos os recursos que a mesa tem, por falta de conhecimento.


PGS: Como você mantém a saúde de seus ouvidos?

Abner Borba: Procuro começar o dia ouvindo o mais baixo possível porque na medida que o ouvido vai cansando (e a cabeça também), agente tende a aumentar o som. Tem que sempre vigiar o volume que estamos trabalhando.


PGS: Temos visto que com as possibilidades e recursos de informática e o acesso cada vez mais fácil ao conhecimento da área aumentando, o mercado tem forçado as gravadoras a mudanças e adequações. Dentro disso, qual é o maior desafio do engenheiro de gravação nestes dias?

Abner Borba: Os tempos mudaram. Muita coisa pode ser feita em casa, sem necessidade de pagar hora estúdio. No entanto, uma produção séria precisa de um estúdio de porte médio ou grande, onde se encontre bons microfones e prés para boas capturas de áudio. Eu passei a fazer muita coisa em casa. Tem gente que me contrata pra eu afinar voz, editar bateria e outros canais, etc... é importante fazer com quem conhece o ramo mas não precisa ser feito no estúdio.Pode ser feito por um custo muito menor na casa do próprio engenheiro. Também estou investindo muito no PTAG (Programa de Treinamento e Aperfeiçoamento em Gravação e Produção). É um programa que criei para treinar equipes de som nas igrejas, dar treinamento técnico para músicos, dou cursos no estúdio da Life e tenho convites feitos para fazer seminário de áudio para técnicos de estúdio e igrejas em Goiânia. Tem sido um momento muito bom para minha vida . Gosto de ensinar e tenho feito uma boa amizade com meus alunos.


PGS: Há engenheiros de gravação que servem de referência para você? Pode citar alguns?

Abner Borba: Sim, tenho trÊs referências marcantes nesta área de minha vida. Uma referência é o Renato Alscher e o pai dele (Egon Alsher). O Renato foi quem ensinou Asaph e eu a maior parte do que o Estúdio da Life é hoje. Na época em que ele gravava Cleiton e Cledir, Engenheiros do Hawaí, ele também gravava o Asaph. Hoje o mercado carioca absorveu ele e ele vive trabalhando nos maiores estudios do Rio. O seu Egon continua aqui em POA (ainda bem) e volta e meia to ligando pra ele pra fazer perguntas, ainda mais com os cursos que estou dando. Outra referência pra mim foi Edielson Aureliano. Ele foi o técnico que trouxe pra Igreja no Brasil a concepção da gravação ao vivo. Ele teve esta idéia na Comunidade da Graça e gravou Adhemar de Campos e em seguida o Asaph. Nós o contratávamos pra gravar ao vivo conosco e aprendi muito com ele. Viajamos muito juntos pelo Brasil e quase tudo o que sei sobre gravação ao vivo eu devo a ele, instrumento de Deus pra abençoar minha vida nesta área.


PGS: Você ouve música? O que tem ouvido ultimamente?

Abner Borba: Ouço de tudo! Sempre tem gente chegando com um trabalho novo lá no estúdio. Antigamente, pra se ouvir um som legal, tínhamos que recorrer a produções seculares mas graças à Deus hoje temos excelentes produções cristãs que servem como referência sonora. Recentemente um discípulo me mostrou uma produção muito boa do Chris Sligh (Running at to you). Achei o cara muito bom e a produção bem feita.


PGS: Uma mensagem pro pessoal do portal Gospel Sul, admiradores do seu trabalho:

Abner Borba: Nós gaúchos, de uma maneira geral, não sabemos nos ajudar e apoiar uns aos outros. É parte da nossa cultura. Somos sempre divididos. A própria história do Rio Grande do Sul é recheada de guerras e divisões (inclusive na atualidade). Qualquer iniciativa olhamos com desconfiança e tememos estar sendo “sugados”. Creio que isso entristece o coração de Deus e faz com que percamos grandes valores no meio da Igreja. Vamos divulgar as novidades, vamos acessar este site e qualquer coisa que eu puder servir a Igreja no Sul e no Brasil contem comigo.... Meu e-mail é abnerborba@gmail.com e também tenho um blog www.abnerborba.blogspot.com que fala um pouco mais do meu programa de treinamento. Podem me encontrar no Orkut também. Abração a todos...


Abner Borba.
51-8426.0477


O Portal Gospel Sul agradece pelo carinho e atenção de Abner Borba.